Lembro-me a primeira vez que deitei os olhos nele. Um lustre
colorido imitando a cabeça de um palhaço cobria a lâmpada que iluminava o
cômodo. A visita não foi em tom oficial; por algum motivo, tive de passar no
novo apartamento. Mas logo fui despachado para a casa de vovó, pisoteando os
jornais que cobriam o chão daquele corredor que parecia imenso, o protegendo da
nova pintura que era realizada – eu era (e continuo) alérgico. Duas décadas
decorreram desde então.
Algumas tentativas de abandonar definitivamente o Nº 22
foram feitas. Mais minhas do que deles. Mas a nossa vontade meio pedante de
mudança perdeu. Afinal, a vida, assim como a conhecemos, faz mais sentido aqui.
Quando mudamos para o Nº 22, num prédio de cinco andares do
outro lado do canal ao nosso anterior, dividi o quarto com minha irmã
recém-divorciada. Nossas manhãs eram embaladas pelos últimos sucessos do pagode
nas FMs locais – ela os gravava em fita K7 e tocava ad nauseam até todos
decorarmos aqueles refrões pegajosos e horrorosos – ou pela minha coleção de
LPs da Rainha dos Baixinhos. Nossas camas enfeitadas como uma vitrine de loja
de brinquedos, repletas de animais de pelúcia comprados ou ganhados naquelas
máquinas de garra caça-niqueis que foram uma coqueluche nos anos 90 – há um foto
de Tob, nosso falecido poodle, posando em meio a eles, quase ele um próprio
bicho de pelúcia. Quando ela engravidou e teve meu sobrinho, mamãe e bebê
ocuparam um novo quarto.
Minha infância se deu entre aquelas quatro paredes. Nunca
fui muito sociável. E na gestação daquele microcosmo só meu, passei anos
escutando e colecionando recortes e fotos de Michael Jackson; esperando
ansiosamente o guia da TV a cabo para saber que filmes iria conhecer naquele
mês e, assim, descobrindo o cinema de Hitchcock ou os musicais de Elvis Presley
em VHS’s programadas para gravar os clássicos noturnos da TNT e do USA
Channel; desenhando e pintando
obsessivamente com lápis de cor imagens do que deveria ser a minha mãe – sempre
um misto de megaestrela pop de botas de cano alto com santa princesa de contos
de fadas.
A pré-adolescência tomou forma com uma descoberta: um vinil
esquecido entre itens a serem descartados numa rotineira faxina – True Blue da
Madonna. E adeus aos posters das Paquitas que adornavam as paredes! Madonna
triunfaria como rainha soberana do meu dormitório por alguns bons anos. E veio
mudança de escola. Novos amigos. No aniversário de 15 anos, quase 20 deles o
lotaram em meio a risos, deliciosas fofocas e, claro, derrubadas trágicas ao chão
de itens preciosíssimos das minhas prateleiras – duas prateleiras Reais, uma
dedicada a Michael Jackson e outra a Madonna. Ah, eu tinha um linha de telefone
própria! Aos fins de semana, podia usá-la para acessar a internet – e nos
demais dias ligar para meus amigos e fofocar por horas!
Não foram anos bons. Apostilas de Física e Química jogadas
na cama, a atenção vagueando enquanto o CD Player portátil tocava um a um todos
os álbuns da Legião Urbana - atenção
especial para o repeat em Vento no Litoral, A Via Láctea e, obviamente, Por
Enquanto – e as noites solitárias de sexta-feira re-assistindo Juventude
Transviada pela septuagésima nona vez. Na confusão que era crescer, o quarto
tomara uma importância definitiva na minha sobrevivência diária. Mais do que uma
extensão de mim, era um microcosmo delimitado de tudo o que me fazia acreditar
num amanhã melhor. Às vezes, era difícil sair dele. Chegou o dia onde isso se
tornou impossível – e ele se tornou meu asilo seguro contra os males do mundo
exterior – mesmo quando o meu temor que ele desmoronasse sobre mim parecesse
mais do que uma armadilha da mente, naquelas noites taquicardíacas.
Quando ele, que nunca poderia ter ido, se foi, eu estava ao
telefone no quarto, balbuciando palavras inteligíveis enquanto os canais de
televisão alardeavam o fato. Eu já era um college drop-out nos últimos meses de
vida do meu poodle, Tob. Deitado em uma manta no chão, cansado das dores, fiz
aqui seu último clique para recordação. No dia seguinte, eu perdia meu
companheiro de quase dezesseis anos.
A morte se tornara uma constante no meu cotidiano, mesma na
forma da morte de vivências que não tornariam a se repetir. O quarto, de
repente, parecia um simulacro fúnebre de um passado e esperanças fadadas.
Ganhou um ar sombrio, melancólico, fracassado. O abandonei. Fui ser estrangeiro
em outros quartos.
Quando voltei, resignado, promovi uma revolução. Os pôsters
juvenis foram substituídos por quadros envidraçados; os livros ganharam morada
própria e, lado a lado, Marlon Brando e Judy Garland – em suas formas
biográficas – foram receber lufadas de vento e o sol da tarde na terceira
prateleira da nova estante – assim como minhas amadas miniaturas e bugigangas
que adornam agora o seu próprio display. Cores fortes, eu havia descoberto,
melhoravam o meu humor. Bowie disse
certa vez que passou a vida tentando “se livrar” de seu quarto. Eu acredito ter
feito as pazes com o meu.
Minhas paredes andam agora mais ocupadas do que antes.
Reproduções de Edward Hopper. Pôsters antigos de cinema ou propagandas. Minha
mãe disse que é um desperdício pintá-las se eu as encho de quadros. Bem,
paredes brancas, ao estilo dos hospícios, sempre me deixaram nervoso! A morte
continua a permeá-lo, seja nos quadros de Marilyn, Jimmy Dean e, sim, Michael
Jackson; ou no porta-retrato onde mantenho a imagem de vovô. Ela é necessária e
um lembrete ao carpe diem, pois tanto a Marilyn dos lábios úmidos em
preto-e-branco que me encara como eu sabemos que ainda há muito a se perder.
Às vezes gosto de sentar em minha cama e, com a música
baixinha vinda do toca-discos, perceber os sons que emanam ao meu redor. Um
vizinho apressado batendo o portão; um vendedor de rua a anunciar, a plenos pulmões, algum produto
aparentemente banal; a diminuição do fluxo de carros pela rua
ao cair da tarde; as patinhas de Busby, meu adorado maltês, tocando o chão – ou
correndo, no momento em que percebo o som do nariz de plástico de algum
bichinho de pelúcia se chocando contra o chão quando ele os pega para brincar;
a voz de meu pai ao celular ou conversando com a televisão; o cantarolar de
minha mãe - e até as discussões curtas e comedidas dos dois. A sinfonia da vida
que não separa os instrumentos em suas respectivas trilhas, mas transforma
todos numa única faixa gravada, mixada pela memória. Não dá para conter o sorriso.
Então, o menino que desenhava a mãe dona de casa com botas
de couro de cano alto abre a porta do quarto e vai correndo atrás do cachorro, num
pega-pega juvenil, alheio à hora ou aos compromissos. Tem o rosto inundado por
lambidas apaixonadas feito juras de amor eterno. Deita no chão e observa o sol
da tarde invadindo o apartamento pela janela da sala, aquecendo aquela planta
horrorosa que sua mãe insiste em manter lá. Uma voz longínqua lhe lembra que
está atrasado para a escola, hora de botar o uniforme, arrumar a lancheira, etc.
Mas ele continua deitado no chão, sorrindo para o sol feito um fotofóbico miraculosamente
curado, enquanto o pequeno cachorro lambe para longe suas divagações das quatro
da tarde.
Nenhum comentário:
Postar um comentário