quarta-feira, 22 de julho de 2015

O quarto do menino


Lembro-me a primeira vez que deitei os olhos nele. Um lustre colorido imitando a cabeça de um palhaço cobria a lâmpada que iluminava o cômodo. A visita não foi em tom oficial; por algum motivo, tive de passar no novo apartamento. Mas logo fui despachado para a casa de vovó, pisoteando os jornais que cobriam o chão daquele corredor que parecia imenso, o protegendo da nova pintura que era realizada – eu era (e continuo) alérgico. Duas décadas decorreram desde então.

Algumas tentativas de abandonar definitivamente o Nº 22 foram feitas. Mais minhas do que deles. Mas a nossa vontade meio pedante de mudança perdeu. Afinal, a vida, assim como a conhecemos, faz mais sentido aqui.

Quando mudamos para o Nº 22, num prédio de cinco andares do outro lado do canal ao nosso anterior, dividi o quarto com minha irmã recém-divorciada. Nossas manhãs eram embaladas pelos últimos sucessos do pagode nas FMs locais – ela os gravava em fita K7 e tocava ad nauseam até todos decorarmos aqueles refrões pegajosos e horrorosos – ou pela minha coleção de LPs da Rainha dos Baixinhos. Nossas camas enfeitadas como uma vitrine de loja de brinquedos, repletas de animais de pelúcia comprados ou ganhados naquelas máquinas de garra caça-niqueis que foram uma coqueluche nos anos 90 – há um foto de Tob, nosso falecido poodle, posando em meio a eles, quase ele um próprio bicho de pelúcia. Quando ela engravidou e teve meu sobrinho, mamãe e bebê ocuparam um novo quarto.

Minha infância se deu entre aquelas quatro paredes. Nunca fui muito sociável. E na gestação daquele microcosmo só meu, passei anos escutando e colecionando recortes e fotos de Michael Jackson; esperando ansiosamente o guia da TV a cabo para saber que filmes iria conhecer naquele mês e, assim, descobrindo o cinema de Hitchcock ou os musicais de Elvis Presley em VHS’s programadas para gravar os clássicos noturnos da TNT e do USA Channel;  desenhando e pintando obsessivamente com lápis de cor imagens do que deveria ser a minha mãe – sempre um misto de megaestrela pop de botas de cano alto com santa princesa de contos de fadas.

A pré-adolescência tomou forma com uma descoberta: um vinil esquecido entre itens a serem descartados numa rotineira faxina – True Blue da Madonna. E adeus aos posters das Paquitas que adornavam as paredes! Madonna triunfaria como rainha soberana do meu dormitório por alguns bons anos. E veio mudança de escola. Novos amigos. No aniversário de 15 anos, quase 20 deles o lotaram em meio a risos, deliciosas fofocas e, claro, derrubadas trágicas ao chão de itens preciosíssimos das minhas prateleiras – duas prateleiras Reais, uma dedicada a Michael Jackson e outra a Madonna. Ah, eu tinha um linha de telefone própria! Aos fins de semana, podia usá-la para acessar a internet – e nos demais dias ligar para meus amigos e fofocar por horas!

Não foram anos bons. Apostilas de Física e Química jogadas na cama, a atenção vagueando enquanto o CD Player portátil tocava um a um todos os álbuns da Legião Urbana  - atenção especial para o repeat em Vento no Litoral, A Via Láctea e, obviamente, Por Enquanto – e as noites solitárias de sexta-feira re-assistindo Juventude Transviada pela septuagésima nona vez. Na confusão que era crescer, o quarto tomara uma importância definitiva na minha sobrevivência diária. Mais do que uma extensão de mim, era um microcosmo delimitado de tudo o que me fazia acreditar num amanhã melhor. Às vezes, era difícil sair dele. Chegou o dia onde isso se tornou impossível – e ele se tornou meu asilo seguro contra os males do mundo exterior – mesmo quando o meu temor que ele desmoronasse sobre mim parecesse mais do que uma armadilha da mente, naquelas noites taquicardíacas.

Quando ele, que nunca poderia ter ido, se foi, eu estava ao telefone no quarto, balbuciando palavras inteligíveis enquanto os canais de televisão alardeavam o fato. Eu já era um college drop-out nos últimos meses de vida do meu poodle, Tob. Deitado em uma manta no chão, cansado das dores, fiz aqui seu último clique para recordação. No dia seguinte, eu perdia meu companheiro de quase dezesseis anos.

A morte se tornara uma constante no meu cotidiano, mesma na forma da morte de vivências que não tornariam a se repetir. O quarto, de repente, parecia um simulacro fúnebre de um passado e esperanças fadadas. Ganhou um ar sombrio, melancólico, fracassado. O abandonei. Fui ser estrangeiro em outros quartos.

Quando voltei, resignado, promovi uma revolução. Os pôsters juvenis foram substituídos por quadros envidraçados; os livros ganharam morada própria e, lado a lado, Marlon Brando e Judy Garland – em suas formas biográficas – foram receber lufadas de vento e o sol da tarde na terceira prateleira da nova estante – assim como minhas amadas miniaturas e bugigangas que adornam agora o seu próprio display. Cores fortes, eu havia descoberto, melhoravam o meu humor. Bowie disse certa vez que passou a vida tentando “se livrar” de seu quarto. Eu acredito ter feito as pazes com o meu.

Minhas paredes andam agora mais ocupadas do que antes. Reproduções de Edward Hopper. Pôsters antigos de cinema ou propagandas. Minha mãe disse que é um desperdício pintá-las se eu as encho de quadros. Bem, paredes brancas, ao estilo dos hospícios, sempre me deixaram nervoso! A morte continua a permeá-lo, seja nos quadros de Marilyn, Jimmy Dean e, sim, Michael Jackson; ou no porta-retrato onde mantenho a imagem de vovô. Ela é necessária e um lembrete ao carpe diem, pois tanto a Marilyn dos lábios úmidos em preto-e-branco que me encara como eu sabemos que ainda há muito a se perder.

Às vezes gosto de sentar em minha cama e, com a música baixinha vinda do toca-discos, perceber os sons que emanam ao meu redor. Um vizinho apressado batendo o portão; um vendedor de rua a anunciar, a plenos pulmões, algum produto aparentemente banal; a diminuição do fluxo de carros pela rua ao cair da tarde; as patinhas de Busby, meu adorado maltês, tocando o chão – ou correndo, no momento em que percebo o som do nariz de plástico de algum bichinho de pelúcia se chocando contra o chão quando ele os pega para brincar; a voz de meu pai ao celular ou conversando com a televisão; o cantarolar de minha mãe - e até as discussões curtas e comedidas dos dois. A sinfonia da vida que não separa os instrumentos em suas respectivas trilhas, mas transforma todos numa única faixa gravada, mixada pela memória.  Não dá para conter o sorriso. 

Então, o menino que desenhava a mãe dona de casa com botas de couro de cano alto abre a porta do quarto e vai correndo atrás do cachorro, num pega-pega juvenil, alheio à hora ou aos compromissos. Tem o rosto inundado por lambidas apaixonadas feito juras de amor eterno. Deita no chão e observa o sol da tarde invadindo o apartamento pela janela da sala, aquecendo aquela planta horrorosa que sua mãe insiste em manter lá. Uma voz longínqua lhe lembra que está atrasado para a escola, hora de botar o uniforme, arrumar a lancheira, etc. Mas ele continua deitado no chão, sorrindo para o sol feito um fotofóbico miraculosamente curado, enquanto o pequeno cachorro lambe para longe suas divagações das quatro da tarde.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Garbo, a Divina

O rosto mais enigmático da história do cinema faria anos em setembro próximo. Se viva, Greta Lovisa Gustafsson, conhecida mundialmente como Greta Garbo, completaria 105 anos de idade. Seu segundo papel no cinema – que lhe rendeu reconhecimento internacional e o convite para Hollywood - como uma jovem em meio aos horrores da Viena pós-Primeira Guerra Mundial, em Rua das Lágrimas, completa 90 anos em 2015. Ano que também marca outros 25 de ausência de um dos mitos mais debatidos e idolatrados do século XX.

Inédito em língua portuguesa, Garbo de Barry Paris – um tomo de aproximadamente 700 páginas -, publicado nos Estados Unidos em 1995, é o mais próximo de uma representação completa e possivelmente acurada da ‘Divina’.

Nascida no distrito de Södermalm em Estocolmo, na Suécia, a pequena Greta Gustafsson teve uma infância difícil. Solitária e encantada pelo teatro, ela sonhava em ser atriz. Descoberta quando trabalhava em uma loja de departamento, ela ganha o papel principal no longa-metragem de Mauritz Stiller – que se tornaria seu mentor – intitulado “Gosta Berlings Saga”. Para as telonas, ela ganha uma nova identidade: Greta Garbo. Dentre as inúmeras suposições para a origem de seu sobrenome estelar, a mais romântica sustenta que garbo era um arcaico vocábulo norueguês para ninfa ou duende da floresta, e que Stiller o havia escolhido para descrevê-la como  “um ser misterioso que sai no meio da noite para dançar ao luar.” Tal mística funcionou muito bem desde o primeiro filme. Mas o sucesso internacional viria com o clássico silencioso de G. W. Pabst, Rua das Lágrimas. Louis B. Mayer, co-fundador da MGM, teria ficado impressionado com o apelo visual da atriz. Junto com Stiller, ela seguiria contratada para Hollywood.

A Estrela Suprema

Garbo estrelaria 25 filmes nos Estados Unidos e, em meados dos anos 30, se tornaria a atriz mais bem paga de Hollywood. Traumatizada por uma entrevista desastrosa e mal editada durante a realização de seu primeiro filme na Suécia, e orientada por Stiller, Garbo adota uma postura dramática e inédita entre as estrelas: o silêncio. Durante seus anos como rainha do cinema norte-americano até o fim de sua vida, seriam raríssimas as entrevistas concedidas a veículos de imprensa, o que alimentaria o mito além de seu último suspiro: afinal, quem e o quê era Greta Garbo?

Em seus clássicos e recordistas de público, Grande Hotel, Rainha Cristina, Camille, ela se move pela tela como se não tocasse o chão. Seu ar etéreo e sonâmbulo e sua voz grave e arrastada fascinaram plateias no mundo todo.  A face maximizada nas salas de cinema era um paradoxo à Garbo por trás das câmeras. A estrela tinha pavor de ensaiar na frente de outros atores e de ser observada.  Envergonhada da própria caligrafia, nunca distribuiu um autógrafo sequer e passou seus anos no auge fugindo da imprensa e das hordas de fãs apaixonados.

Indiferente aos caprichos da fama, Garbo, "a escandinava mais triste desde Hamlet" segundo Alastair Forbes, sempre esteve disposta a perseguir sua carreira cinematográfica como a abandonar tudo num estalo de dedos e retornar para a Suécia. Isto lhe deu grande poder de barganha para chegar aos seus termos em determinados projetos – e enfurecer o chefe da MGM, Louis B. Mayer. Em 1941, após o lançamento de Two-Faced Woman, Garbo estava próxima dos 40 anos – idade considerada avançada para uma estrela do cinema à época.  Entristecida pelas críticas ao filme – que tencionava mudar a imagem séria de Garbo para uma espécie de “rainha da rumba” – ela decide que aquele seria seu último projeto. Embora sinalizações de retornos tenham acontecido em anos – e décadas – seguintes, Greta Garbo nunca mais apareceria em uma produção cinematográfica.

"I want to be left alone"

E nem na televisão ou no teatro.  Em 1955, mais de uma década após sua última aparição em um longa-metragem, um re-lançamento de Camille quebra recordes em salas de cinema de todos os Estados Unidos. No Lux Theatre em Manhattan, se exibem seis sessões por dia  - lotadas – que geram uma arrecadação de 300.000 dólares.  Alguns anos mais tarde, em 1963, um especial de cinco semanas de filmes de Garbo no Empire Theatre de Londres quebra todos os recordes de bilheteria até então. No mesmo ano, um canal de TV italiano exibe Anna Karenima, Camille e outros três filmes de Garbo em sucessivas noites de domingo. Assistidos por 10 milhões de pessoas, esvaziaram as salas de cinema - uma queda de 75% - e levaram os exibidores de Roma a uma greve de vinte e quatro horas "anti-Garbo" na TV.

Em meio ao fervor da redescoberta, Garbo se mantinha isolada no apartamento 450 na rua 52 do East Side, em Nova York, onde passaria seus últimos 50 anos de vida. Diferente de Dietrich, que manteve a aura de uma Hollywood que já não existia mais até o fim de seus dias, Greta Gustafsson negou Greta Garbo. Nunca mais atuou, nem se dedicou à qualquer outra atividade, artística ou não, além de colecionar arte. Não casou e nem teve filhos. Paris nos revela, com melancolia, uma mulher deprimida que passou décadas à deriva, consumida pelo tédio, sem destino, ambições ou desejos. Talvez esta seja a verdade. Ou, talvez, uma tentativa de compreensão ao absurdo de sua prematura aposentadoria. 

Garbo, a divina, nos deixaria em 15 de abril de 1990, aos 84 anos.