
Em agosto de 1979, Off The Wall chegava às lojas. Era o primeiro álbum efetivamente solo de Michael Jackson que, naquele momento, ainda não era o Michael Jackson. Com seus maiores hits a uma década de distância, os Jacksons viam um breve florescer com o sucesso de Shake Your Body. Mas tudo estava para mudar. Off The Wall geraria 4 hits Top 10 na parada americana – dois #1s -, um recorde até então. Botaria o mundo inteiro para dançar ao se transformar no álbum mais vendido por um artista negro na história (até então). Poderia ter sido facilmente o auge na carreira de Jackson, caso ele... bem, mas a história de Lee não começa por aqui.
Emblematicamente lançado no Mês da História Negra dos EUA, Michael Jackson’s Journey From Motown to Off The Wall começa lá atrás, nos idos de I Want You Back e ABC. Vale relembrar, como é apontado no documentário, que o Jackson 5 foi o primeiro grupo na história a ter 4 singles consecutivos em #1 na parada norte-americana. Mas Lee não nos transporta para estes dias em uma celebração à nostalgia e aos louros do quinteto. A história aqui é outra e está nos bastidores. É a história do pequeno Michael Jackson nos estúdios da Motown, observando gravações, questionando compositores e acompanhando Berry Gordy na mixagem dos singles que dominaram a América nos anos 70. Sua voz está conosco o tempo todo, em arquivos de entrevistas, pontuando argumentos e dando o tom ao filme.
Com um excelente trabalho de pesquisa, Lee exibe jóias raramente veiculadas, como o momento em que Michael Jackson (em sua primeira aparição televisiva), ao lado de Diana Ross, encontra Sammy Davis Jr. no palco do Hollywood Palace. Ou os precisos passos robóticos aos 15 anos de idade, em uma eletrizante performance de Dancing Machine no Soul Train.
Em 1976, o Jackson 5 deixou a Motown – e, nela, o irmão Jermaine – para perseguir um horizonte de maiores possibilidades artísticas na CBS. Talvez a surpresa do documentário seja de que tal mudança não foi bem vista na indústria – e nem uma contratação popular dentro da própria CBS. Foi o momento mais tenso na minha vida, a mudança da Motown para a CBS. Eu estava em um mundo totalmente novo. Eu não sabia o que estava acontecendo, narra um Michael Jackson em tom melancólico.
Os executivos da CBS afirmam que, à época, os Jacksons já eram um grupo considerado ultrapassado e de credibilidade questionável – aqui é citado o fato dos irmãos terem tido seu próprio desenho animado, fato que parece nunca ter levado a credibilidade dos Beatles a ser questionada. Resumindo: na nova casa, os Jacksons eram vistos como um produto de gravadora. Restava a eles provarem que os engravatados estavam errados.
Lee nos leva a uma merecida apreciação de uma era geralmente ignorada na discografia de Michael Jackson e dos Jacksons. Os álbuns The Jacksons (onde foi lançada a primeira composição de Michael, Blues Away), Goin’ Places e Destiny. Os dois primeiros, produzidos pela lendária dupla Kenny Gamble & Huff, estabeleceram o novo som do grupo. O último, produzido pelos próprios, os levaram de volta ao sucesso dos primeiros anos de carreira, com os hits Blame It On The Boogie e Shake Your Body. Outro momento desta época relembrado por Lee, como um comentário acerca do talento de MJ como dançarino, é a série televisiva de verão que os Jacksons realizaram pela CBS em 1976 e 1977. O diretor também nos mostra um bate-papo frente a frente entre Michael Jackson e Fred Astaire, assim como um depoimento de Gene Kelly sobre o amigo.
O jovem astro muda para Nova York e estrela The Wiz, dirigido por Sidney Lumet. No set de filmagens, conhece Quincy Jones, que se tornaria o produtor de Off The Wall e seus sucessores dos anos 80. Aqui, a escolha da narrativa de Spike Lee se mostra certeira. Ao nos transportar dez anos antes de Off The Wall, Lee nos diz: este disco não foi feito da noite para o dia! Foi o resultado de um Michael Jackson perfeccionista, apaixonado pela arte e com fome de aprender e de se expressar. Como dito no documentário, a noção de “talentos naturais” é comumente atribuída a artistas negros, como se não houvesse estratégia, habilidade ou esforço. Deste modo, Lee presta um importante papel ao legado de Jackson ao desconstruir a preconceituosa noção, muito difundida pelos críticos brancos de rock, de que MJ era um mero entertainer com um bom produtor.
Joe Vogel, autor de Man In The Music, destaca a revelação de Michael como músico em seu próprio mérito na demo de Don’t Stop ‘Til You Get Enough gravada em Encino – já próxima da versão final, quando entregue a Quincy Jones.
Lee discute então faixa-a-faixa do disco, como em Bad 25, com o depoimento de produtores e compositores – que trabalharam ou foram influenciados pelo épico álbum. Destaque para a participação de Stevie Wonder (que poderia ter aparecido um pouco mais) e para o take de Michael se desculpando pelo choro no fim de She’s Out of My Life. Teria Paul McCartney recusado um convite para discutir Girlfriend? A montagem com imagens do programa Dating Game de 72 ficou simplesmente hilária!
Mas a jóia da coroa fica por conta das breves, mas fantásticas, imagens da Destiny e Triumph Tour. A cena de um eletrizante Jackson, dançando sem perder uma batida, levantando as pernas e exibindo suas icônicas meias brilhantes em Don’t Stop ‘Til You Get Enough já povoa os sonhos daqueles que desejam o show completo em DVD/Blu-Ray – sem qualquer sinal de lançamento.
Como teria se sentido o Michael Jackson de 1979 diante deste estrondoso êxito? Talvez, não tão feliz assim. Apesar do sucesso que quebrou barreiras internacionais, as revistas semanais se recusavam a estampar o astro negro na capa, como revela esta carta da Rolling Stone de 1979. A premiação Grammy o esnobou, indicando o disco para apenas dois prêmios – MJ levaria para casa o prêmio de Melhor Performance Vocal Masculina em R&B. A lenda é de que o episódio do Grammy foi um fator decisivo para o nascimento de Thriller. Ele entrou em estúdio decidido a fazer o álbum mais vendido de todos os tempos. E assim fez!
Off The Wall é o retrato deste jovem gênio, alegre, exuberante e comprometido a se tornar um performer “mágico” que irá “chocar o mundo”. É o som que o pop vem tentando imitar desde quando tentaram instituir um novo Rei – e é o disco que Timberlake, Mars e tantos outros vão passar a vida tentando emular. É atemporal. É o começo de Michael Jackson. E hoje, para muitos na plateia de Lee, pode ser uma inestimável descoberta.










