quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"Off The Wall" - O Amanhecer de Michael Jackson


Como o líder do Jackson 5 se transformou em Michael Jackson? Seria tudo uma questão de talento nato? Ou o trabalho de um grande produtor aliado a uma eficiente máquina de marketing? Os de bom senso já sabem a resposta: óbvio que não! Mas para os descrentes, Spike Lee retrata um artista de disciplina ímpar, apaixonado pelo seu trabalho e em completo domínio de seu gigantesco talento.

Em agosto de 1979, Off The Wall chegava às lojas. Era o primeiro álbum efetivamente solo de Michael Jackson que, naquele momento, ainda não era o Michael Jackson. Com seus maiores hits a uma década de distância, os Jacksons viam um breve florescer com o sucesso de Shake Your Body. Mas tudo estava para mudar. Off The Wall geraria 4 hits Top 10 na parada americana – dois #1s -, um recorde até então. Botaria o mundo inteiro para dançar ao se transformar no álbum mais vendido por um artista negro na história (até então). Poderia ter sido facilmente o auge na carreira de Jackson, caso ele... bem, mas a história de Lee não começa por aqui.

Emblematicamente lançado no Mês da História Negra dos EUA, Michael Jackson’s Journey From Motown to Off The Wall começa lá atrás, nos idos de I Want You Back e ABC. Vale relembrar, como é apontado no documentário, que o Jackson 5 foi o primeiro grupo na história a ter 4 singles consecutivos em #1 na parada norte-americana. Mas Lee não nos transporta para estes dias em uma celebração à nostalgia e aos louros do quinteto. A história aqui é outra e está nos bastidores. É a história do pequeno Michael Jackson nos estúdios da Motown, observando gravações, questionando compositores e acompanhando Berry Gordy na mixagem dos singles que dominaram a América nos anos 70.  Sua voz está conosco o tempo todo, em arquivos de entrevistas, pontuando argumentos e dando o tom ao filme. 

Com um excelente trabalho de pesquisa, Lee exibe jóias raramente veiculadas, como o momento em que Michael Jackson (em sua primeira aparição televisiva), ao lado de Diana Ross, encontra Sammy Davis Jr. no palco do Hollywood Palace. Ou os precisos passos robóticos aos 15 anos de idade, em uma eletrizante performance de Dancing Machine no Soul Train.

Em 1976, o Jackson 5 deixou a Motown – e, nela, o irmão Jermaine – para perseguir um horizonte de maiores possibilidades artísticas na CBS. Talvez a surpresa do documentário seja de que tal mudança não foi bem vista na indústria – e nem uma contratação popular dentro da própria CBS. Foi o momento mais tenso na minha vida, a mudança da Motown para a CBS. Eu estava em um mundo totalmente novo. Eu não sabia o que estava acontecendo, narra um Michael Jackson em tom melancólico. 

Os executivos da CBS afirmam que, à época, os Jacksons já eram um grupo considerado ultrapassado e de credibilidade questionável – aqui é citado o fato dos irmãos terem tido seu próprio desenho animado, fato que parece nunca ter levado a credibilidade dos Beatles a ser questionada. Resumindo: na nova casa, os Jacksons eram vistos como um produto de gravadora. Restava a eles provarem que os engravatados estavam errados.

Lee nos leva a uma merecida apreciação de uma era geralmente ignorada na discografia de Michael Jackson e dos Jacksons. Os álbuns The Jacksons (onde foi lançada a primeira composição de Michael, Blues Away), Goin’ Places e Destiny. Os dois primeiros, produzidos pela lendária dupla Kenny Gamble & Huff, estabeleceram o novo som do grupo. O último, produzido pelos próprios, os levaram de volta ao sucesso dos primeiros anos de carreira, com os hits Blame It On The Boogie e Shake Your Body. Outro momento desta época relembrado por Lee, como um comentário acerca do talento de MJ como dançarino, é a série televisiva de verão que os Jacksons realizaram pela CBS em 1976 e 1977. O diretor também nos mostra um bate-papo frente a frente entre Michael Jackson e Fred Astaire, assim como um depoimento de Gene Kelly sobre o amigo. 

O jovem astro muda para Nova York e estrela The Wiz, dirigido por Sidney Lumet. No set de filmagens, conhece Quincy Jones, que se tornaria o produtor de Off The Wall e seus sucessores dos anos 80. Aqui, a escolha da narrativa de Spike Lee se mostra certeira. Ao nos transportar dez anos antes de Off The Wall, Lee nos diz: este disco não foi feito da noite para o dia! Foi o resultado de um Michael Jackson perfeccionista, apaixonado pela arte e com fome de aprender e de se expressar. Como dito no documentário, a noção de “talentos naturais” é comumente atribuída a artistas negros, como se não houvesse estratégia, habilidade ou esforço. Deste modo, Lee presta um importante papel ao legado de Jackson ao desconstruir a preconceituosa noção, muito difundida pelos críticos brancos de rock, de que MJ era um mero entertainer com um bom produtor. 

Joe Vogel, autor de Man In The Music, destaca a revelação de Michael como músico em seu próprio mérito na demo de Don’t Stop ‘Til You Get Enough gravada em Encino – já próxima da versão final, quando entregue a Quincy Jones.

Lee discute então faixa-a-faixa do disco, como em Bad 25, com o depoimento de produtores e compositores – que trabalharam ou foram influenciados pelo épico álbum. Destaque para a participação de Stevie Wonder (que poderia ter aparecido um pouco mais) e para o take de Michael se desculpando pelo choro no fim de She’s Out of My Life. Teria Paul McCartney recusado um convite para discutir Girlfriend? A montagem com imagens do programa Dating Game de 72 ficou simplesmente hilária!

Mas a jóia da coroa fica por conta das breves, mas fantásticas, imagens da Destiny e Triumph Tour. A cena de um eletrizante Jackson, dançando sem perder uma batida, levantando as pernas e exibindo suas icônicas meias brilhantes em Don’t Stop ‘Til You Get Enough já povoa os sonhos daqueles que desejam o show completo em DVD/Blu-Ray – sem qualquer sinal de lançamento.

Como teria se sentido o Michael Jackson de 1979 diante deste estrondoso êxito? Talvez, não tão feliz assim. Apesar do sucesso que quebrou barreiras internacionais, as revistas semanais se recusavam a estampar o astro negro na capa, como revela esta carta da Rolling Stone de 1979. A premiação Grammy o esnobou, indicando o disco para apenas dois prêmios – MJ levaria para casa o prêmio de Melhor Performance Vocal Masculina em R&B. A lenda é de que o episódio do Grammy foi um fator decisivo para o nascimento de Thriller. Ele entrou em estúdio decidido a fazer o álbum mais vendido de todos os tempos. E assim fez!

Off The Wall é o retrato deste jovem gênio, alegre, exuberante e comprometido a se tornar um performer “mágico” que irá “chocar o mundo”. É o som que o pop vem tentando imitar desde quando tentaram instituir um novo Rei – e é o disco que Timberlake, Mars e tantos outros vão passar a vida tentando emular. É atemporal. É o começo de Michael Jackson. E hoje, para muitos na plateia de Lee, pode ser uma inestimável descoberta.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Blond Saves Defeated Man (For Now)


That dim light of those days
Of watercolour memory hour
Will inspire no anthems of grace
And there shan't be prayer for his spirit to soar
When darkness takes its final toll

No mercy is granted to the defeated man
Though in platinum locks and sparkling heels
Blinding my sight you stand
On the unforgiving nothingness I've grown to be

Those buttered scarlet lips - they draw me a smile
On the top of that tiny magical tin box
There's a sensual champagne-like giggle in the air
For in whispers you plead me to unlock
The round shaped Purple and Red

I wash them down to your cotton candy laughter
And in that breathy tone you say: "Weep no more, dear
For we've got a hold of its course now
No sidetracking mind twist will drive us to fear
On their faces, top hat and cane at hand, we'll parade the town"

Indeed, I come to understand it all so sharply
Deep staring into your bubbling glass of brandy
You'll make another Method flick in York
And there'll never be that ladies' 3 a.m. ambulance call

"The heels are gone", as you playingly throw them into the air
You diss Mr. Miller and, by this time, the blues has wiped its own traces
Arm around my neck, we walk down the road 
I feel it's leading somewhere
Miss Jean places her wet lips on my left cheek and says:
"Honey, we are goin' places".

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O quarto do menino


Lembro-me a primeira vez que deitei os olhos nele. Um lustre colorido imitando a cabeça de um palhaço cobria a lâmpada que iluminava o cômodo. A visita não foi em tom oficial; por algum motivo, tive de passar no novo apartamento. Mas logo fui despachado para a casa de vovó, pisoteando os jornais que cobriam o chão daquele corredor que parecia imenso, o protegendo da nova pintura que era realizada – eu era (e continuo) alérgico. Duas décadas decorreram desde então.

Algumas tentativas de abandonar definitivamente o Nº 22 foram feitas. Mais minhas do que deles. Mas a nossa vontade meio pedante de mudança perdeu. Afinal, a vida, assim como a conhecemos, faz mais sentido aqui.

Quando mudamos para o Nº 22, num prédio de cinco andares do outro lado do canal ao nosso anterior, dividi o quarto com minha irmã recém-divorciada. Nossas manhãs eram embaladas pelos últimos sucessos do pagode nas FMs locais – ela os gravava em fita K7 e tocava ad nauseam até todos decorarmos aqueles refrões pegajosos e horrorosos – ou pela minha coleção de LPs da Rainha dos Baixinhos. Nossas camas enfeitadas como uma vitrine de loja de brinquedos, repletas de animais de pelúcia comprados ou ganhados naquelas máquinas de garra caça-niqueis que foram uma coqueluche nos anos 90 – há um foto de Tob, nosso falecido poodle, posando em meio a eles, quase ele um próprio bicho de pelúcia. Quando ela engravidou e teve meu sobrinho, mamãe e bebê ocuparam um novo quarto.

Minha infância se deu entre aquelas quatro paredes. Nunca fui muito sociável. E na gestação daquele microcosmo só meu, passei anos escutando e colecionando recortes e fotos de Michael Jackson; esperando ansiosamente o guia da TV a cabo para saber que filmes iria conhecer naquele mês e, assim, descobrindo o cinema de Hitchcock ou os musicais de Elvis Presley em VHS’s programadas para gravar os clássicos noturnos da TNT e do USA Channel;  desenhando e pintando obsessivamente com lápis de cor imagens do que deveria ser a minha mãe – sempre um misto de megaestrela pop de botas de cano alto com santa princesa de contos de fadas.

A pré-adolescência tomou forma com uma descoberta: um vinil esquecido entre itens a serem descartados numa rotineira faxina – True Blue da Madonna. E adeus aos posters das Paquitas que adornavam as paredes! Madonna triunfaria como rainha soberana do meu dormitório por alguns bons anos. E veio mudança de escola. Novos amigos. No aniversário de 15 anos, quase 20 deles o lotaram em meio a risos, deliciosas fofocas e, claro, derrubadas trágicas ao chão de itens preciosíssimos das minhas prateleiras – duas prateleiras Reais, uma dedicada a Michael Jackson e outra a Madonna. Ah, eu tinha um linha de telefone própria! Aos fins de semana, podia usá-la para acessar a internet – e nos demais dias ligar para meus amigos e fofocar por horas!

Não foram anos bons. Apostilas de Física e Química jogadas na cama, a atenção vagueando enquanto o CD Player portátil tocava um a um todos os álbuns da Legião Urbana  - atenção especial para o repeat em Vento no Litoral, A Via Láctea e, obviamente, Por Enquanto – e as noites solitárias de sexta-feira re-assistindo Juventude Transviada pela septuagésima nona vez. Na confusão que era crescer, o quarto tomara uma importância definitiva na minha sobrevivência diária. Mais do que uma extensão de mim, era um microcosmo delimitado de tudo o que me fazia acreditar num amanhã melhor. Às vezes, era difícil sair dele. Chegou o dia onde isso se tornou impossível – e ele se tornou meu asilo seguro contra os males do mundo exterior – mesmo quando o meu temor que ele desmoronasse sobre mim parecesse mais do que uma armadilha da mente, naquelas noites taquicardíacas.

Quando ele, que nunca poderia ter ido, se foi, eu estava ao telefone no quarto, balbuciando palavras inteligíveis enquanto os canais de televisão alardeavam o fato. Eu já era um college drop-out nos últimos meses de vida do meu poodle, Tob. Deitado em uma manta no chão, cansado das dores, fiz aqui seu último clique para recordação. No dia seguinte, eu perdia meu companheiro de quase dezesseis anos.

A morte se tornara uma constante no meu cotidiano, mesma na forma da morte de vivências que não tornariam a se repetir. O quarto, de repente, parecia um simulacro fúnebre de um passado e esperanças fadadas. Ganhou um ar sombrio, melancólico, fracassado. O abandonei. Fui ser estrangeiro em outros quartos.

Quando voltei, resignado, promovi uma revolução. Os pôsters juvenis foram substituídos por quadros envidraçados; os livros ganharam morada própria e, lado a lado, Marlon Brando e Judy Garland – em suas formas biográficas – foram receber lufadas de vento e o sol da tarde na terceira prateleira da nova estante – assim como minhas amadas miniaturas e bugigangas que adornam agora o seu próprio display. Cores fortes, eu havia descoberto, melhoravam o meu humor. Bowie disse certa vez que passou a vida tentando “se livrar” de seu quarto. Eu acredito ter feito as pazes com o meu.

Minhas paredes andam agora mais ocupadas do que antes. Reproduções de Edward Hopper. Pôsters antigos de cinema ou propagandas. Minha mãe disse que é um desperdício pintá-las se eu as encho de quadros. Bem, paredes brancas, ao estilo dos hospícios, sempre me deixaram nervoso! A morte continua a permeá-lo, seja nos quadros de Marilyn, Jimmy Dean e, sim, Michael Jackson; ou no porta-retrato onde mantenho a imagem de vovô. Ela é necessária e um lembrete ao carpe diem, pois tanto a Marilyn dos lábios úmidos em preto-e-branco que me encara como eu sabemos que ainda há muito a se perder.

Às vezes gosto de sentar em minha cama e, com a música baixinha vinda do toca-discos, perceber os sons que emanam ao meu redor. Um vizinho apressado batendo o portão; um vendedor de rua a anunciar, a plenos pulmões, algum produto aparentemente banal; a diminuição do fluxo de carros pela rua ao cair da tarde; as patinhas de Busby, meu adorado maltês, tocando o chão – ou correndo, no momento em que percebo o som do nariz de plástico de algum bichinho de pelúcia se chocando contra o chão quando ele os pega para brincar; a voz de meu pai ao celular ou conversando com a televisão; o cantarolar de minha mãe - e até as discussões curtas e comedidas dos dois. A sinfonia da vida que não separa os instrumentos em suas respectivas trilhas, mas transforma todos numa única faixa gravada, mixada pela memória.  Não dá para conter o sorriso. 

Então, o menino que desenhava a mãe dona de casa com botas de couro de cano alto abre a porta do quarto e vai correndo atrás do cachorro, num pega-pega juvenil, alheio à hora ou aos compromissos. Tem o rosto inundado por lambidas apaixonadas feito juras de amor eterno. Deita no chão e observa o sol da tarde invadindo o apartamento pela janela da sala, aquecendo aquela planta horrorosa que sua mãe insiste em manter lá. Uma voz longínqua lhe lembra que está atrasado para a escola, hora de botar o uniforme, arrumar a lancheira, etc. Mas ele continua deitado no chão, sorrindo para o sol feito um fotofóbico miraculosamente curado, enquanto o pequeno cachorro lambe para longe suas divagações das quatro da tarde.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Garbo, a Divina

O rosto mais enigmático da história do cinema faria anos em setembro próximo. Se viva, Greta Lovisa Gustafsson, conhecida mundialmente como Greta Garbo, completaria 105 anos de idade. Seu segundo papel no cinema – que lhe rendeu reconhecimento internacional e o convite para Hollywood - como uma jovem em meio aos horrores da Viena pós-Primeira Guerra Mundial, em Rua das Lágrimas, completa 90 anos em 2015. Ano que também marca outros 25 de ausência de um dos mitos mais debatidos e idolatrados do século XX.

Inédito em língua portuguesa, Garbo de Barry Paris – um tomo de aproximadamente 700 páginas -, publicado nos Estados Unidos em 1995, é o mais próximo de uma representação completa e possivelmente acurada da ‘Divina’.

Nascida no distrito de Södermalm em Estocolmo, na Suécia, a pequena Greta Gustafsson teve uma infância difícil. Solitária e encantada pelo teatro, ela sonhava em ser atriz. Descoberta quando trabalhava em uma loja de departamento, ela ganha o papel principal no longa-metragem de Mauritz Stiller – que se tornaria seu mentor – intitulado “Gosta Berlings Saga”. Para as telonas, ela ganha uma nova identidade: Greta Garbo. Dentre as inúmeras suposições para a origem de seu sobrenome estelar, a mais romântica sustenta que garbo era um arcaico vocábulo norueguês para ninfa ou duende da floresta, e que Stiller o havia escolhido para descrevê-la como  “um ser misterioso que sai no meio da noite para dançar ao luar.” Tal mística funcionou muito bem desde o primeiro filme. Mas o sucesso internacional viria com o clássico silencioso de G. W. Pabst, Rua das Lágrimas. Louis B. Mayer, co-fundador da MGM, teria ficado impressionado com o apelo visual da atriz. Junto com Stiller, ela seguiria contratada para Hollywood.

A Estrela Suprema

Garbo estrelaria 25 filmes nos Estados Unidos e, em meados dos anos 30, se tornaria a atriz mais bem paga de Hollywood. Traumatizada por uma entrevista desastrosa e mal editada durante a realização de seu primeiro filme na Suécia, e orientada por Stiller, Garbo adota uma postura dramática e inédita entre as estrelas: o silêncio. Durante seus anos como rainha do cinema norte-americano até o fim de sua vida, seriam raríssimas as entrevistas concedidas a veículos de imprensa, o que alimentaria o mito além de seu último suspiro: afinal, quem e o quê era Greta Garbo?

Em seus clássicos e recordistas de público, Grande Hotel, Rainha Cristina, Camille, ela se move pela tela como se não tocasse o chão. Seu ar etéreo e sonâmbulo e sua voz grave e arrastada fascinaram plateias no mundo todo.  A face maximizada nas salas de cinema era um paradoxo à Garbo por trás das câmeras. A estrela tinha pavor de ensaiar na frente de outros atores e de ser observada.  Envergonhada da própria caligrafia, nunca distribuiu um autógrafo sequer e passou seus anos no auge fugindo da imprensa e das hordas de fãs apaixonados.

Indiferente aos caprichos da fama, Garbo, "a escandinava mais triste desde Hamlet" segundo Alastair Forbes, sempre esteve disposta a perseguir sua carreira cinematográfica como a abandonar tudo num estalo de dedos e retornar para a Suécia. Isto lhe deu grande poder de barganha para chegar aos seus termos em determinados projetos – e enfurecer o chefe da MGM, Louis B. Mayer. Em 1941, após o lançamento de Two-Faced Woman, Garbo estava próxima dos 40 anos – idade considerada avançada para uma estrela do cinema à época.  Entristecida pelas críticas ao filme – que tencionava mudar a imagem séria de Garbo para uma espécie de “rainha da rumba” – ela decide que aquele seria seu último projeto. Embora sinalizações de retornos tenham acontecido em anos – e décadas – seguintes, Greta Garbo nunca mais apareceria em uma produção cinematográfica.

"I want to be left alone"

E nem na televisão ou no teatro.  Em 1955, mais de uma década após sua última aparição em um longa-metragem, um re-lançamento de Camille quebra recordes em salas de cinema de todos os Estados Unidos. No Lux Theatre em Manhattan, se exibem seis sessões por dia  - lotadas – que geram uma arrecadação de 300.000 dólares.  Alguns anos mais tarde, em 1963, um especial de cinco semanas de filmes de Garbo no Empire Theatre de Londres quebra todos os recordes de bilheteria até então. No mesmo ano, um canal de TV italiano exibe Anna Karenima, Camille e outros três filmes de Garbo em sucessivas noites de domingo. Assistidos por 10 milhões de pessoas, esvaziaram as salas de cinema - uma queda de 75% - e levaram os exibidores de Roma a uma greve de vinte e quatro horas "anti-Garbo" na TV.

Em meio ao fervor da redescoberta, Garbo se mantinha isolada no apartamento 450 na rua 52 do East Side, em Nova York, onde passaria seus últimos 50 anos de vida. Diferente de Dietrich, que manteve a aura de uma Hollywood que já não existia mais até o fim de seus dias, Greta Gustafsson negou Greta Garbo. Nunca mais atuou, nem se dedicou à qualquer outra atividade, artística ou não, além de colecionar arte. Não casou e nem teve filhos. Paris nos revela, com melancolia, uma mulher deprimida que passou décadas à deriva, consumida pelo tédio, sem destino, ambições ou desejos. Talvez esta seja a verdade. Ou, talvez, uma tentativa de compreensão ao absurdo de sua prematura aposentadoria. 

Garbo, a divina, nos deixaria em 15 de abril de 1990, aos 84 anos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Catarse de Maria da Graça (ou as Encarnações de Xuxa)



O amor é a sua linguagem universal. 16 de dezembro de 1991. Dos alto-falantes do estádio de Velez, em Buenos Aires, ressoa uma voz masculina, firme e profética. Os 70.000 pagantes da noite, entre homens e mulheres de todas as idades - e, é claro, crianças - não escondem o êxtase perante o evento que presenciarão. E a cada dia, esta pessoa de muitas formas vê seu coração crescer de amor por vós. A Anunciação estava completa. Num show de luzes, a espaço-nave cor-de-rosa se acende na escuridão e, ao se abrir ao meio, revela ela. Como uma Nossa Senhora, ela emerge num manto branco e desce as escadas em postura real, sendo auxiliada por dois rapazes. Seu primeiro contato com os humanos se dá com uma reverência e o sinal do amor incondicional na linguagem surdo-muda, uma espécie de código sagrado entre ela e seu público. Não à toa, a canção de abertura escolhida é Quem Sabe Um Dia, com tons de influência do longa-metragem hollywoodiano Contatos Imediatos de Terceiro Grau. O deslumbramento aqui não era menor do que o causado pelo épico extraterrestre de Spielberg. O contato havia sido estabelecido. Era o triunfo da Xuxamania.

Nasce uma Estrela

Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, deu um passo para o estrelato aos 16 anos. Estreando como modelo, ela estampou a capa da recém-lançada revista Carinho. Seria uma verdadeira avalanche – em pouco tempo, a menina de Santa Rosa, Rio Grande do Sul, veria seu rosto em mais de 50 publicações nacionais. Se tornaria o sex symbol tupiniquim dos anos 80, ao lado da modelo e amiga Luiza Brunet. Sua fama atingiria outro patamar com seu romance de seis anos com Pelé – agora, ela também seria figura fácil na capa das revistas de celebridades. O auge do seu sex appeal como modelo se deu ao posar nua para algumas revistas masculinas e estrelar os filmes Fuscão Preto e Amor, Estranho Amor – este último, um fantasma a perseguí-la após o superestrelato.


Xuxa e Luiza Brunet em ensaio 
fotográfico no início dos anos 80

Em um evento de divulgação, Xuxa foi abordada por Maurício Sherman, produtor de televisão. Ele perguntou se ela não cogitaria fazer um programa de TV para crianças. "Você tem o sorriso da Doris Day, a sensualidade da Marilyn Monroe e algo de Peter Pan, acho que as crianças vão gostar". De contrato assinado com a TV Manchete, Xuxa passou a comandar o Clube da Criança.

Com uma estrutura modesta – e altamente parodiado na internet – o Clube da Criança conquistou público e audiência. A chave do sucesso estava na espontaneidade e carisma de Xuxa. Longe da linguagem tatibitati, ou de qualquer fundo pedagógico, Xuxa tratava as crianças em pé de igualdade e promovia diversão – e beleza. Sob a tutela de Marlene Mattos, o programa sofreu melhoras e acabou rendendo um convite da Rede Globo. Em 1986, de malas prontas, ela partia - com Marlene - para a Vênus platinada, com a missão de substituir o fenômeno O Balão Mágico. A Xuxa, modelo e sex symbol, renunciaria agora à mortalidade de Maria da Graça e daria lugar a uma nova encarnação.

Anúncio sobre a estreia do "Xou da Xuxa" 
na Rede Globo

O Prozac Televisivo

Era o fim da ditadura militar. O som da Legião Urbana, RPM e Titãs soava pelas FMs e walkmans da juventude de todo o país. Nas telonas, Tom Cruise fazia multidões suspirarem com Top Gun. O plano Cruzado de Sarney era lançado com a proposta de conter o horror da inflação. E em 30 de junho daquele ano de 1986, às 8h da manhã, estreava na Rede Globo o programa Xou da Xuxa. Tudo o que Xuxa significa e significou para gerações enquanto ícone televisivo e superestrela foi fruto dos quase sete anos em que esteve à frente do matinal. Naquela manhã, nascia uma cena clássica da televisão brasileira: a loira descia de sua nave espacial e dava “bom dia” para milhões de lares sintonizados na Vênus Platinada.

Foi um fenômeno instantâneo. Talvez até inesperado, para a ex-modelo transformada em apresentadora. Com sua trupe de personagens, o Xou passou, quase imediatamente, a povoar o imaginário infantil das crianças da década de 80. As Paquitas, meninas-réplicas de Xuxa, trajadas como soldadinhos de chumbo, ajudavam a controlar os “baixinhos” e organizar as brincadeiras. Praga e Dengue (além de Moderninho e Frentinha) posavam como espécie de palhaços neste circo-cabaret infantil que era o Xou, onde a espontânea estrela comandava brincadeiras, recebia convidados musicais, distribuía prêmios, conversava com a plateia e com as crianças, lia mensagens de positividade e, mesmo sem ser cantora ou dançarina, cantava e dançava. No paradoxo Xuxa, a empreitada deu certo.

Os sete LPs lançados durante os anos do Xou da Xuxa somaram mais de 16 milhões de cópias e renderam à apresentadora em torno de 200 discos de ouro, 80 de platina, 35 de platina duplos, 11 de diamante e 5 discos de diamante duplo. E a loura embolsava 1 dólar para cada cópia vendida. 

Xuxa recebe três discos de platina e um de ouro no Natal de 1991

Logo em sua primeira edição, o Xou da Xuxa (1986) bateu o recorde de vendagens de Roberto Carlos, com mais de 2 milhões e 500.000 cópias. O fenômeno televisivo atingiu uma nova dimensão: agora ela também competia nas rádios com Michael Jackson e Madonna, superastros cujas vendas nacionais ela batia com tranquilidade. A ex-modelo transformada em apresentadora e, agora, em fenômeno pop, arrebatava multidões em shows para estádios lotados em todo o Brasil. O frenesi era embalado pela produção de nomes relevantes de nossa música. Pelos discos Xou da Xuxa, passaram talentos como Lincoln Olivetti, Frejat, Roupa Nova, Cid Guerreiro, Rita Lee, Guto Graça Mello e a infalível dupla de compositores hit makers, Michael Sullivan e Paulo Massadas. O pop de Xuxa, construído sobre a base do melhor da produção oitocentista, dominou as FMs dos anos 80 com hits como Ilariê, Arco-Íris e Lua de Cristal tocados ad infinitum. Seu apelo de popstar transcendeu as fronteiras do programa infantil, o que a permitiu tocar em temas como rejeição parental (“Não Basta”) e, mais tarde, no preconceito às crianças portadoras de síndrome de Down (“Muito Prazer, Eu Existo”).

Na curva ascendente da carreira de Xuxa, tudo passou a se tornar colossal. Em 1988, ela bateu seu próprio recorde de vendagens com o disco Xou da Xuxa 3. Com o sucesso Ilariê, ele entrou para o Livro Guinness dos Recordes como disco mais vendido da história do país. No mesmo ano, ela fazia seu debut como protagonista no cinema. Super Xuxa Contra Baixo Astral levou quase 3 milhões de baixinhos e altinhos às telonas (anos depois, o filme Lua de Cristal, espécie de biografia do mito, se tornaria o filme brasileiro de maior bilheteria da década de 90).


Mas as telas do cinema e da TV e os discos e fitas K7 não eram o suficiente. Para o público, fazer parte do fenômeno Xuxa era também possuí-lo fisicamente, em uma imagem ou objeto de adoração. Nascia então a Xuxa empresária, ou a “Nossa Senhora da Era Industrial” (como a definiu o publicitário J. César Ribeiro). Com um toque de Midas, a agora coroada Rainha dos Baixinhos redefiniu os padrões de licenciamento ao levar sua imagem para uma linha de mais de sessenta produtos. A insistência iconográfica no “X”, beijinhos e sua explosão eufórica de cores poderiam ser levadas para casa em forma de material escolar, carrinhos elétricos, roupas, biscoitos, acessórios, velocípedes, gibis e sandálias, entre uma enorme horda de bugigangas kitsch. Em 1991, a revista americana Forbes a nomearia como a 37ª estrela mais rica do mundo, tomando a dianteira de nomes como o ator Mel Gibson e o rapper Vanilla Ice. A este ponto, a Xuxa televisiva-cinematográfica-fenômeno pop se transformara em um Império para onde as terras brasileiras pareciam pequenas. Expansão era a ordem.

Alguns dos produtos licenciados por Xuxa nos anos 80

A Rainha Continental

Quando Xuxa foi coroada Rainha do Festival de Viña del Mar, Chile, no começo de 1990, ela já era um ícone no imaginário coletivo brasileiro. A adulação e a histeria de seu público (além das genéricas Angélica e Mara Maravilha, contratadas respectivamente pela Manchete e SBT para fazerem frente ao Império X) talvez tenham motivado Marlene Mattos e sua equipe a uma mudança na postura da apresentadora e do programa: naquele ano, os trajes de Xuxa adquiririam um aspecto nobre/militar e a atmosfera do Xou tomaria um tom de reverência e auto-elogio à única Rainha da programação infantil brasileira.

A Rede Globo sempre promoveu a glamurização de seus astros, mas nenhum deles foi tão cuidadosamente lapidado aos moldes do antigo star system hollywoodiano como o mito Xuxa. Rainha dos paradoxos, embora exposta diariamente na televisão, ela também era um mistério para o público. Seu muito noticiado romance com o piloto Ayrton Senna, além das aparentes investidas do presidente Menem, John-John e David Copperfield alimentavam as colunas de fofoca das revistas semanais. Sua sexualidade virou alvo de discussão, sua solidão sentida e dissecada, e ela chegou até a povoar o terreno das lendas urbanas.

Publicação uruguaia faz apostas
sobre a vida amorosa de Xuxa

As características pessoais de Maria da Graça, como a paixão pelos animais e o apreço à natureza, foram exaltadas como dons quase sobrenaturais do amor genuíno e altruísta de Xuxa, a Rainha. Sua ritualística “marquinha” ao final de cada programa consagrava a experiência semi-religiosa: a Rainha “refaz as suas forças” (como narra aqui Cid Moreira) e transmite divindade aos seus súditos sortudos, mesmo no erotismo da marca de seu batom cor-de-rosa. A cada despedida, Xuxa era coroada e enfeitada com dezenas de faixas, recebia cartas quilométricas com repetidas declarações de amor e causava o choro desenfreado entre baixinhos e adultos. A certo modo, no Brasil assolado pela miséria, corrupção e crise econômica, ela se tornara um bode expiatório. Quando os primeiros sinais de crise de identidade vieram à superfície, causaram pânico. Seu papel de Prozac televisivo de uma nação aparentemente sem motivos para pular ao som do Ilariê não poderia ser sobreposto pelas crises pessoais de Maria da Graça. "Entendi as pessoas que sempre me chamaram de alienada. A coisa cada vez está pior. Quem tem, tem mais, quem não tem, tem menos. E eu, boba da corte, vou trazer alegria pra que, para quem e para onde?" A manchete da IstoÉ alardeava - "O Desencanto da Rainha". Rumores sobre o fim do Xou mobilizaram cartas desesperadas de crianças de todo o Brasil. Feliz ou não, Maria da Graça foi silenciada. A Rainha precisava retomar seu trono na religião televisiva e o Império de milhões de dólares precisava prosseguir - com uma parada argentina.

Naquele mesmo ano, estreava o El Show de Xuxa, versão em espanhol do programa brasileiro, no canal argentino Telefé. Retransmitido para mais de 20 países e líder de audiência no horário com 24 pontos (o dobro marcado no Brasil), Xuxa levou todo o aparato de seu Império para a terra de Eva Perón e conquistou um público talvez ainda mais fanático que o brasileiro. Seu sucesso virou continental. Seus produtos e discos batiam recordes no Chile, Paraguai, Porto Rico. Aos poucos, o fenômeno latino-americano flertava com os Estados Unidos.

Tanta adulação e um ritmo coreano de trabalho devem ter exaurido Maria da Graça. Repetidas vezes, ela afirmou saber que um dia "tudo isso iria acabar". O fenômeno era consciente de sua brevidade e, talvez, em seu íntimo, ansiasse pelo fim do reinado. Em 31 de dezembro de 1992, ela descia de sua nave pela última vez na despedida do Xou da Xuxa. Na mesma data do ano seguinte, teria fim a versão argentina do programa. Em ambas edições, a comoção tomou conta dos estúdios e parou seus respectivos países. A era “Xou da Xuxa” havia acabado na televisão. Em 1993, a invasão de sua corte real seria nas terras de Tio Sam. O X tomaria o globo e o império seria total. Mas a ‘blond ambition’ de Xuxa, por alguns motivos conhecidos – e outros não, não vingou. Em 1994, a Rainha voltaria definitivamente para o seu público brasileiro. Era o fim do Sonho Universal. Seja lá por qual motivo, sua carreira internacional, salvo esporádicos lançamentos e participações em programas, seria totalmente abandonada.

Xuxa sobe em sua nave pela última vez. Era o fim da era 'Xou da
Xuxa' na TV.

A Rainha quer sentar no chão

As produções de Xuxa a partir de 1994 foram uma continuidade lógica ao legado do Xou da Xuxa, com algumas correções e certo comedimento. De olho no público adolescente que havia crescido com ela nas manhãs globais, estreou em 1997 o Planeta Xuxa, programa de musicais e entrevistas. No entanto, todos os signos do mito X persistiam ali: descendo de um globo e glorificada por suas Paquitas, o Planeta seguia o script dos rituais do Xou - era o Xou da Xuxa na boate. Na briga de grandes pela audiência das tardes de domingo, a Rainha se manteve forte e relevante por toda a década de 90.

Por isso o espanto em 2002, quando ela e Marlene Mattos, sua fiel empresária, escudeira, amiga e motor por trás de todo o aparato do Império X, romperam. Foi decretado o final do Planeta. A Rainha queria voltar aos infantis e, agora, queria "sentar no chão" e estar em pé de igualdade com as crianças. Ninguém entendeu nada.

Planeta Xuxa: líder de audiência enquanto esteve
no ar, entre 1997 e 2002

Em uma série de entrevistas, Xuxa passou a defender desesperadamente sua humanidade, por vezes em declarações grosseiras ("faço xixi, faço cocô"), por outras demonstrando plena consciência sobre a imagem a qual estava quebrando. O mito queria liberdade. Aos poucos, Maria da Graça vencia a guerra e a mítica então imaculada de Xuxa desvanecia.

Inspirada pela maternidade e apostando no estrondoso sucesso da série de DVDs Xuxa Só Para Baixinhos, ela resolveu investir em um programa televisivo dos mesmos moldes. O tom educativo e a postura infantilizada de Xuxa/Maria da Graça em Xuxa no Mundo da Imaginação, beirando os 40 anos, não agradaram o grande público e, em 2005, ele era substituído pelo TV Xuxa - um infantil diário irrelevante que também desgastou a imagem da apresentadora perante o grande público. Ao optar exclusivamente pelo segmento infantil, Xuxa ignorou profissionalmente duas gerações que havia conquistado com os louros do Xou da Xuxa. Os baixinhos dos anos 2000, passado os 5 anos, pouco pareciam se importar com a loura. Assim, em 2007, Xuxa dava adeus à programação infantil da Rede Globo.

Transformado em programa de auditório “para a família”, o TV Xuxa foi o último programa televisivo da estrela na Rede Globo. No ar entre 2008 e 2014, nunca firmou um formato, consolidou um quadro ou apresentou qualquer coisa inovadora. A antiga naturalidade de Xuxa parecia, muitas vezes, forçada, e sua famosa espontaneidade, em tempos de televisão rápida - e em pouco tempo de duração do programa - ficava na ilha de edição. Não havia sequer um vislumbre da grandeza de sua história televisiva, seja no conceito, cenário ou figurino. O padrão X de excelência não estava mais ali. Tirando poucos momentos em que flertou com o passado glorioso de Xuxa, o semanal parecia um vislumbre nostálgico por uma Xuxa que não estava mais ali – ou que estava sendo podada, ou que estava desestimulada, ou que não queria mais o fardo de ser Xuxa. Quando saiu do ar, quase ninguém notou. Maria da Graça havia vencido Xuxa.

Xuxa se despede do TV Xuxa - e
também da Rede Globo

No chão ou na Record. Maria voltará a ser Xuxa?

Maria da Graça parece pouco preocupada com a repercussão sobre sua saída da Rede Globo. Aparentando uma longamente procurada e duramente conquistada felicidade, ela tem divertido seus seguidores nas redes sociais exibindo fotos antigas e com o seu namorado, o cantor Junno. A estrela pouco parece se preocupar em aparecer sem maquiagem e despenteada - e respondeu com graça o comentário de um seguidor sobre estar envelhecendo. Talvez Xuxa tenha atingido a maturidade a qual professores, psicólogos e uma horda da intelectuais exigiam dela em seu auge. Engajada em leis de proteção às crianças, ela se expôs à críticas e vem demonstrando independência e autenticidade em suas declarações pelas redes sociais. Mostra que é de verdade, e não um produto de marketing da máquina X.

O longo e aquecido debate sobre a possível ida de Xuxa para a Record - ou o SBT - movimentou os sites de notícias, colunas de opinião, redes sociais, salões de cabeleireiro e mesas de bar. Quem descarta a loura para fora do baralho não está atento aos sinais. O frenesi da mídia e do público demonstra que a história de Xuxa está longe de ter um fim. Ela ainda é para nós a lembrança do que é o superestrelato, numa era de estrelas descartáveis que ascendem e apagam na velocidade de um clique.

Como será seu futuro televisivo? Terá ela sucesso em outra emissora? Conseguirá ela equiparar o novo programa a um dos seus grandes sucessos do passado? É difícil dizer. Xuxa quer ser Maria da Graça, mas sente saudades do seu público. Pelo Facebook, distribui beijos e troca mensagens com os que ainda se mantiveram fiéis após décadas de carreira. Fala em voltar, demonstra querer brilhar. Quem sabe, quando Xuxa retornar à televisão, ela acenda uma faísca no coração do público e dê início a uma nova encarnação de sua persona midiática. Afinal, com Rede Globo ou não, o Império X precisa avançar. Seria a reviravolta do mito. Ou, talvez, a última chance.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Soneto Sensorial de Garbo

"Por toda a minha vida, eu fui um símbolo. Eu desejo ser um ser humano." - Garbo como "Cristina"

Com calças e botas de caçar, em close-up, ela retira o chapéu e expõe sua face-porcelana: Greta Garbo! Era 1933. A MGM Estúdios de Louis B. Mayer lançava com fanfarra o novo longa-metragem da maior estrela do mundo à época. Rainha Cristina, dirigido por Rouben Mamoulian, marcou o retorno da estrela ao santuário do século XX - as telas de cinema - após uma ausência de um ano e meio. Especulava-se que a atriz deixaria definitivamente o cinema após uma viagem para a Europa em 1932, sem indicação de retorno - fato usado com maestria pelo departamento de divulgação da MGM. O marketing de Rainha Cristina não deixava dúvidas: este era o grande retorno da divina e misteriosa Garbo, a artista mais bem paga de Hollywood, em uma de suas maiores interpretações.

A premissa do roteiro é baseada na vida real de Cristina (1626-1689), Rainha da Suécia, que abdicou de seu trono aos 28 anos e foi viver no exílio após se converter ao catolicismo romano. Intelectual, Cristina tinha desprezo pelo que se considerava "assuntos de mulher". Ela decide não se casar, enfurecendo a corte, e entra para a história como uma figura misteriosa e excêntrica. A Cristina de Garbo alude a detalhes essenciais do mito da Rainha, mas não sem uma boa dose de melodrama hollywoodiano.

Garbo, enquanto Rainha Cristina, é uma mulher austera, inteligente e sensível, que lê peças de Molière e é ávida pelas obras de Velasquez. Tomada pela burocracia de sua vida no castelo, ela encontra conforto e amizade em Ebba, uma condessa. Quando as duas se encontram em cena pela primeira vez, a expressão de Garbo toma um ar jovial. Elas se cumprimentam com um selinho, que assinala aqui a ambiguidade da sexualidade de Garbo/Cristina e o tema da troca de gêneros, essencial em momentos-chave do filme.

O produtor Irving Thalberg havia assistido ao polêmico filme alemão de 1931, Senhoritas de Uniforme, um dos primeiros a retratar abertamente um relacionamento lésbico. Ele pediu aos roteiristas que pensassem num paralelo deste filme com as cenas de Cristina e Ebba. "Se for manejado com bom gosto, pode nos dar cenas interessantes," disse o lendário produtor.

Como quando Cristina, decidida a não se casar, afirma que vai morrer como um "solteirão". Ela insiste com Ebba que passem alguns dias fora, longe das obrigações prosaicas do castelo, mas a confiança de Cristina é quebrada: Ebba vai se casar. Cristina a escuta reclamando de sua amizade excessiva para o futuro marido. Confrontada, Ebba pede perdão e Cristina exibe mágoa. Qualquer tensão sexual entre as duas personagens se encerra aqui.

A próxima sequência é crucial para o mito do filme. Presa em uma estalagem por conta de uma forte tempestade de neve, Cristina conversa com Antonio - interpretado pelo antigo par cinematográfico de Garbo, John Gilbert -, mensageiro do Rei da Espanha que a havia confundido anteriormente como um "jovem rapaz". Sentados um em frente ao outro e rodeado por bárbaros, eles discutem arte, viagens e o amor. Um laço é definitivamente criado. Quando Antonio é informado que a estalagem está com todos os seus quartos ocupados, se oferece a dividir com o jovem rapaz/Cristina. Ele/ela se recusa, ambos discutem, até que Cristina aceita.

Elsa, uma garota mais do que contente em agradar, entra no quarto e se insinua para Cristina com uma ousada insistência para este filme de 1933. "O dono disse que você deve ter o que desejar," diz ela. Uma versão mais longa da cena, com Elsa acariciando as botas de Greta Garbo, ficou na sala de edição.

Na levemente cômica cena em que Gilbert e Garbo se despem de seus trajes - e Garbo revela-se mulher -, Antonio abre um largo sorriso e corre para Cristina, como se o alívio de uma antes não-compreendida atração se revelasse e o ato pudesse ser consumado. (Há ainda uma cômica cena quando, na manhã do dia seguinte, um embasbacado membro da equipe de Antonio, ao encontrar a cama fechada por cortinas, pergunta se ele e "o outro senhor" desejavam bebidas para o café, e ouve um "sim").

Já nos braços um do outro, Cristina/Garbo se lança a um soneto sensorial: ela percorre lentamente o quarto da estalagem, aos olhos atentos de Antonio, e toca objetos, móveis, paredes, com o rosto iluminado, como se em um transe. "Eu estou memorizando este quarto. No futuro, na minha memória, eu viverei um bom tempo neste quarto." O lirismo visual da cena, coreografada às batidas de um metrônomo, extasia e nos aproxima de Cristina/Garbo: quem de nós nunca se encontrou "memorizando" ambientes, como se eternizando para si uma porção de felicidade no tempo-espaço? Assistir à dança emotiva de Garbo é também estar naquele quarto, perdidamente apaixonado.

Quando retorna ao castelo, Cristina exibe mudanças. Usa vestido e demonstra alegria. Mas sua insatisfação com o dever de reinar e a pressão para que case com o Rei da Espanha a esgotam. "Por toda a minha vida, eu fui um símbolo. Eu desejo ser um ser humano." Quanto significado tais palavras tomam ao serem pronunciadas por Greta Garbo, que vivia um duplo: era obcecada por privacidade, mas era a artista mais popular do mundo. Ela era a única estrela a conseguir o que queria com Louis B. Mayer, o lendário chefe da MGM Estúdios - ele sabia que, se contrariada, Garbo não titubearia em dar as costas ao cinema e voltar para casa.

Como o fez - anos mais tarde, é claro. Por ora, como Cristina, ela abdica do trono para viver seu grande amor no exílio. Fiel à história oficial, Garbo traja branco na cerimônia e retira a coroa da cabeça com as próprias mãos. Ao se libertar da coroa, Garbo/Cristina parecem se fundir em um ato simbólico para a monarca como para o mito cinematográfico. Ambas se despem do ato de servir, seja a um povo ou aos anseios de fãs histéricos e chefes de estúdios. O estrelato e a realeza são corajosamente deixados para trás e ambas decidem viver como mortais.

Ao chegar no navio onde embarcará para a Espanha, Cristina encontra Antonio ferido. Os ferimentos de um duelo o levam a falecer em seus braços. Ela abraça o amado e se levanta, mas são seus olhos lacrimejados que conduzem nossas expectativas e nos contam a sua mudança de espírito. De dor, eles passam a transmitir esperança. Cristina resolve seguir para a Espanha. O plano final é um majestoso close-up do rosto de Garbo. Ela não sorri, tampouco aparenta tristeza. Cristina se torna força; mortal, porém soberana em sua coragem de seguir; destemida, mesmo que ela passe muito tempo naquele quarto, em sua memória - como todos nós...

Quando lançado, Rainha Cristina foi considerado um fracasso de bilheteria, mas arquivos de Eddie Mannix, principal assistente de Louis B. Mayer, revelam que os U$632.000 arrecadados pelo filme só o deixavam atrás, em bilheteria, de dois outros sucessos de Garbo: Mata Hari e Grande Hotel. Mais de 80 anos depois, seu status na filmografia de Garbo - e da Hollywood da década de 30 - é o de um clássico. Garbo pode ter abdicado ao estrelato, mas sua presença cênica e mystique jamais serão superadas. No firmamento cinematográfico, ela continua a brilhar.