
Inédito em língua portuguesa, Garbo de Barry Paris – um tomo de aproximadamente 700 páginas -, publicado nos Estados Unidos em 1995, é o mais próximo de uma representação completa e possivelmente acurada da ‘Divina’.
Nascida no distrito de Södermalm em Estocolmo, na Suécia, a pequena Greta Gustafsson teve uma infância difícil. Solitária e encantada pelo teatro, ela sonhava em ser atriz. Descoberta quando trabalhava em uma loja de departamento, ela ganha o papel principal no longa-metragem de Mauritz Stiller – que se tornaria seu mentor – intitulado “Gosta Berlings Saga”. Para as telonas, ela ganha uma nova identidade: Greta Garbo. Dentre as inúmeras suposições para a origem de seu sobrenome estelar, a mais romântica sustenta que garbo era um arcaico vocábulo norueguês para ninfa ou duende da floresta, e que Stiller o havia escolhido para descrevê-la como “um ser misterioso que sai no meio da noite para dançar ao luar.” Tal mística funcionou muito bem desde o primeiro filme. Mas o sucesso internacional viria com o clássico silencioso de G. W. Pabst, Rua das Lágrimas. Louis B. Mayer, co-fundador da MGM, teria ficado impressionado com o apelo visual da atriz. Junto com Stiller, ela seguiria contratada para Hollywood.
A Estrela Suprema
Garbo estrelaria 25 filmes nos Estados Unidos e, em meados dos anos 30, se tornaria a atriz mais bem paga de Hollywood. Traumatizada por uma entrevista desastrosa e mal editada durante a realização de seu primeiro filme na Suécia, e orientada por Stiller, Garbo adota uma postura dramática e inédita entre as estrelas: o silêncio. Durante seus anos como rainha do cinema norte-americano até o fim de sua vida, seriam raríssimas as entrevistas concedidas a veículos de imprensa, o que alimentaria o mito além de seu último suspiro: afinal, quem e o quê era Greta Garbo?
Em seus clássicos e recordistas de público, Grande Hotel, Rainha Cristina, Camille, ela se move pela tela como se não tocasse o chão. Seu ar etéreo e sonâmbulo e sua voz grave e arrastada fascinaram plateias no mundo todo. A face maximizada nas salas de cinema era um paradoxo à Garbo por trás das câmeras. A estrela tinha pavor de ensaiar na frente de outros atores e de ser observada. Envergonhada da própria caligrafia, nunca distribuiu um autógrafo sequer e passou seus anos no auge fugindo da imprensa e das hordas de fãs apaixonados.
Indiferente aos caprichos da fama, Garbo, "a escandinava mais triste desde Hamlet" segundo Alastair Forbes, sempre esteve disposta a perseguir sua carreira cinematográfica como a abandonar tudo num estalo de dedos e retornar para a Suécia. Isto lhe deu grande poder de barganha para chegar aos seus termos em determinados projetos – e enfurecer o chefe da MGM, Louis B. Mayer. Em 1941, após o lançamento de Two-Faced Woman, Garbo estava próxima dos 40 anos – idade considerada avançada para uma estrela do cinema à época. Entristecida pelas críticas ao filme – que tencionava mudar a imagem séria de Garbo para uma espécie de “rainha da rumba” – ela decide que aquele seria seu último projeto. Embora sinalizações de retornos tenham acontecido em anos – e décadas – seguintes, Greta Garbo nunca mais apareceria em uma produção cinematográfica.
"I want to be left alone"
E nem na televisão ou no teatro. Em 1955, mais de uma década após sua última aparição em um longa-metragem, um re-lançamento de Camille quebra recordes em salas de cinema de todos os Estados Unidos. No Lux Theatre em Manhattan, se exibem seis sessões por dia - lotadas – que geram uma arrecadação de 300.000 dólares. Alguns anos mais tarde, em 1963, um especial de cinco semanas de filmes de Garbo no Empire Theatre de Londres quebra todos os recordes de bilheteria até então. No mesmo ano, um canal de TV italiano exibe Anna Karenima, Camille e outros três filmes de Garbo em sucessivas noites de domingo. Assistidos por 10 milhões de pessoas, esvaziaram as salas de cinema - uma queda de 75% - e levaram os exibidores de Roma a uma greve de vinte e quatro horas "anti-Garbo" na TV.
Em meio ao fervor da redescoberta, Garbo se mantinha isolada no apartamento 450 na rua 52 do East Side, em Nova York, onde passaria seus últimos 50 anos de vida. Diferente de Dietrich, que manteve a aura de uma Hollywood que já não existia mais até o fim de seus dias, Greta Gustafsson negou Greta Garbo. Nunca mais atuou, nem se dedicou à qualquer outra atividade, artística ou não, além de colecionar arte. Não casou e nem teve filhos. Paris nos revela, com melancolia, uma mulher deprimida que passou décadas à deriva, consumida pelo tédio, sem destino, ambições ou desejos. Talvez esta seja a verdade. Ou, talvez, uma tentativa de compreensão ao absurdo de sua prematura aposentadoria.
Garbo, a divina, nos deixaria em 15 de abril de 1990, aos 84 anos.
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