
Com calças e botas de caçar, em close-up, ela retira o chapéu e expõe sua face-porcelana: Greta Garbo! Era 1933. A MGM Estúdios de Louis B. Mayer lançava com fanfarra o novo longa-metragem da maior estrela do mundo à época. Rainha Cristina, dirigido por Rouben Mamoulian, marcou o retorno da estrela ao santuário do século XX - as telas de cinema - após uma ausência de um ano e meio. Especulava-se que a atriz deixaria definitivamente o cinema após uma viagem para a Europa em 1932, sem indicação de retorno - fato usado com maestria pelo departamento de divulgação da MGM. O marketing de Rainha Cristina não deixava dúvidas: este era o grande retorno da divina e misteriosa Garbo, a artista mais bem paga de Hollywood, em uma de suas maiores interpretações.
A premissa do roteiro é baseada na vida real de Cristina (1626-1689), Rainha da Suécia, que abdicou de seu trono aos 28 anos e foi viver no exílio após se converter ao catolicismo romano. Intelectual, Cristina tinha desprezo pelo que se considerava "assuntos de mulher". Ela decide não se casar, enfurecendo a corte, e entra para a história como uma figura misteriosa e excêntrica. A Cristina de Garbo alude a detalhes essenciais do mito da Rainha, mas não sem uma boa dose de melodrama hollywoodiano.
Garbo, enquanto Rainha Cristina, é uma mulher austera, inteligente e sensível, que lê peças de Molière e é ávida pelas obras de Velasquez. Tomada pela burocracia de sua vida no castelo, ela encontra conforto e amizade em Ebba, uma condessa. Quando as duas se encontram em cena pela primeira vez, a expressão de Garbo toma um ar jovial. Elas se cumprimentam com um selinho, que assinala aqui a ambiguidade da sexualidade de Garbo/Cristina e o tema da troca de gêneros, essencial em momentos-chave do filme.
O produtor Irving Thalberg havia assistido ao polêmico filme alemão de 1931, Senhoritas de Uniforme, um dos primeiros a retratar abertamente um relacionamento lésbico. Ele pediu aos roteiristas que pensassem num paralelo deste filme com as cenas de Cristina e Ebba. "Se for manejado com bom gosto, pode nos dar cenas interessantes," disse o lendário produtor.
Como quando Cristina, decidida a não se casar, afirma que vai morrer como um "solteirão". Ela insiste com Ebba que passem alguns dias fora, longe das obrigações prosaicas do castelo, mas a confiança de Cristina é quebrada: Ebba vai se casar. Cristina a escuta reclamando de sua amizade excessiva para o futuro marido. Confrontada, Ebba pede perdão e Cristina exibe mágoa. Qualquer tensão sexual entre as duas personagens se encerra aqui.
A próxima sequência é crucial para o mito do filme. Presa em uma estalagem por conta de uma forte tempestade de neve, Cristina conversa com Antonio - interpretado pelo antigo par cinematográfico de Garbo, John Gilbert -, mensageiro do Rei da Espanha que a havia confundido anteriormente como um "jovem rapaz". Sentados um em frente ao outro e rodeado por bárbaros, eles discutem arte, viagens e o amor. Um laço é definitivamente criado. Quando Antonio é informado que a estalagem está com todos os seus quartos ocupados, se oferece a dividir com o jovem rapaz/Cristina. Ele/ela se recusa, ambos discutem, até que Cristina aceita.
Elsa, uma garota mais do que contente em agradar, entra no quarto e se insinua para Cristina com uma ousada insistência para este filme de 1933. "O dono disse que você deve ter o que desejar," diz ela. Uma versão mais longa da cena, com Elsa acariciando as botas de Greta Garbo, ficou na sala de edição.
Na levemente cômica cena em que Gilbert e Garbo se despem de seus trajes - e Garbo revela-se mulher -, Antonio abre um largo sorriso e corre para Cristina, como se o alívio de uma antes não-compreendida atração se revelasse e o ato pudesse ser consumado. (Há ainda uma cômica cena quando, na manhã do dia seguinte, um embasbacado membro da equipe de Antonio, ao encontrar a cama fechada por cortinas, pergunta se ele e "o outro senhor" desejavam bebidas para o café, e ouve um "sim").
Já nos braços um do outro, Cristina/Garbo se lança a um soneto sensorial: ela percorre lentamente o quarto da estalagem, aos olhos atentos de Antonio, e toca objetos, móveis, paredes, com o rosto iluminado, como se em um transe. "Eu estou memorizando este quarto. No futuro, na minha memória, eu viverei um bom tempo neste quarto." O lirismo visual da cena, coreografada às batidas de um metrônomo, extasia e nos aproxima de Cristina/Garbo: quem de nós nunca se encontrou "memorizando" ambientes, como se eternizando para si uma porção de felicidade no tempo-espaço? Assistir à dança emotiva de Garbo é também estar naquele quarto, perdidamente apaixonado.
Quando retorna ao castelo, Cristina exibe mudanças. Usa vestido e demonstra alegria. Mas sua insatisfação com o dever de reinar e a pressão para que case com o Rei da Espanha a esgotam. "Por toda a minha vida, eu fui um símbolo. Eu desejo ser um ser humano." Quanto significado tais palavras tomam ao serem pronunciadas por Greta Garbo, que vivia um duplo: era obcecada por privacidade, mas era a artista mais popular do mundo. Ela era a única estrela a conseguir o que queria com Louis B. Mayer, o lendário chefe da MGM Estúdios - ele sabia que, se contrariada, Garbo não titubearia em dar as costas ao cinema e voltar para casa.
Como o fez - anos mais tarde, é claro. Por ora, como Cristina, ela abdica do trono para viver seu grande amor no exílio. Fiel à história oficial, Garbo traja branco na cerimônia e retira a coroa da cabeça com as próprias mãos. Ao se libertar da coroa, Garbo/Cristina parecem se fundir em um ato simbólico para a monarca como para o mito cinematográfico. Ambas se despem do ato de servir, seja a um povo ou aos anseios de fãs histéricos e chefes de estúdios. O estrelato e a realeza são corajosamente deixados para trás e ambas decidem viver como mortais.
Ao chegar no navio onde embarcará para a Espanha, Cristina encontra Antonio ferido. Os ferimentos de um duelo o levam a falecer em seus braços. Ela abraça o amado e se levanta, mas são seus olhos lacrimejados que conduzem nossas expectativas e nos contam a sua mudança de espírito. De dor, eles passam a transmitir esperança. Cristina resolve seguir para a Espanha. O plano final é um majestoso close-up do rosto de Garbo. Ela não sorri, tampouco aparenta tristeza. Cristina se torna força; mortal, porém soberana em sua coragem de seguir; destemida, mesmo que ela passe muito tempo naquele quarto, em sua memória - como todos nós...
Quando lançado, Rainha Cristina foi considerado um fracasso de bilheteria, mas arquivos de Eddie Mannix, principal assistente de Louis B. Mayer, revelam que os U$632.000 arrecadados pelo filme só o deixavam atrás, em bilheteria, de dois outros sucessos de Garbo: Mata Hari e Grande Hotel. Mais de 80 anos depois, seu status na filmografia de Garbo - e da Hollywood da década de 30 - é o de um clássico. Garbo pode ter abdicado ao estrelato, mas sua presença cênica e mystique jamais serão superadas. No firmamento cinematográfico, ela continua a brilhar.